ArtigosCrime, Arte e Literatura

A Vila: o medo como elemento do controle social

vila

A Vila: o medo como elemento do controle social

O indiano naturalizado americano M. Night Shyamalan já havia chamado atenção do mundo com seu clássico filme onde a invasão de uma “raça superior” seria inevitável, do ponto de vista daqueles possíveis dominados, em Sinais, de 2002, bem como, quem não se lembra de Sexto Sentido (1999) que atordoou a todos com seu final surpreendente?

Em todas as obras o toque principal do autor remete ao subjetivismo dos personagens essenciais que demonstram de todas as formas o fundamento de seus temores, suas dúvidas e suas angustias. Entretanto, há entre essas criações uma que nos chama atenção por suas possibilidades: A Vila.

Comunidade afastada de todos e da natural convivência entre os cidadãos de um mundo em crescente globalização, que remete ao interior dos lares de todos, numa impremeditável velocidade, informações inúmeras, notícias diversas, incessantes apelos da indústria do consumo; um chamado escabroso para afiliar-se ao grupo dominante e formar suas filas no domínio único e essencial de fato no mundo interligado ao efêmero que faz seu apelo: consuma, consuma!

Por outro lado, as diversas situações de risco e as sociedades em eterna busca por uma segurança que não chega por dois motivos bem claros: se por um lado existem informações em profusão entre as quais se incluem uma excessiva quantidade de exageros e grande pitada de um controle que não mais vive nas sombras, mas busca manejar os próximos passos de todos, noutro viés há o medo intrínseco ao ser humano que é relacionado ao outro, ainda mais quando o outro é retratado diariamente como o inimigo nos jornais e programas sensacionalistas que fazem sucesso no horário nobre das TVs de todo o mundo.

Esse é o cenário. A grande publicidade, jornais e os discursos utilizados demonstram a todos a prisão em que se vive, realçando os mais entranhados medos tornando-os palpáveis e alcançáveis.

Para fugir de tudo isso e da violência que atingiu alguns em suas vidas nas metrópoles do mundo, em A Vila alguns cidadãos, entre eles destaques profissionais como famosos médicos, famosos psicólogos e políticos, resolveram que a guinada radical seria sua salvação e o início de um modo de vida alternativo, frente aos meios já conhecidos e vivenciados por todos. Assim, uma comunidade isolada de tudo e todos formou-se numa região áspera, de difícil acesso e mantida em segredo em um local de preservação natural onde ninguém teria autorização de aproximação.

Mantida esquecida e assim estabelecida a coletividade que ali se formava mantinha seus laços de união entre aqueles que preservavam o mesmo sentimento; que era o de fugir das vidas e rotinas dos grandes centros urbanos, recheados de medo, violência crescente, pobreza extrema e um toque surreal de apelos sugestivos ao ingresso no mercado das dívidas, do consumismo e de tudo o que é fútil.

A sociedade que se formava se mantinha numa união que tradicionalmente foi se mantendo pelos laços formados entre os viventes, utilizando de diversos mecanismos de defesa contra o mundo exterior e mantendo aqueles que perfaziam suas fileiras no interior de seus alinhamentos.

Para isso, inúmeras formas mantinham os curiosos, especialmente jovens, os novos aventureiros por ímpeto da idade, num controle extremo que explicitava a violência e o sobrenatural, tão vivos nas florestas afora.

Controlar o medo dos outros tem seus resultados, até determinado ponto. Todavia, tal comunidade, livre do mundo e em sintonia com a natureza, possuía suas regras próprias e seus líderes, seus ensinamentos, sabores e dissabores. O ímpeto humano da descoberta e curiosidade era freado diariamente por lendas contadas pelos idosos da vila, que passavam a virar realidade quando se entendia ser necessário utilizar o medo para frear esse fervor juvenil de buscar o desconhecido.

Assim, as criaturas que assustavam nada mais eram que os mais velhos utilizando fantasias de monstros criando um ar macabro e fantasioso de perigo, rondando a vila caso seu santuário sagrado, que ficava atrás das margens da cidadezinha, fosse rompido ou invadido por algum curioso qualquer.

Dessa forma o controle era sopesado e tido como essencial para manter as pessoas dentro das bordas da vila, e essas, acreditavam, aceitavam e conviviam com os seres malignos, doando inclusive oferendas para satisfazer-lhes a fome ou controlar-lhes de alguma forma.

Para Durkheim, tal comunidade tradicional seria interligada por laços fortes que unem a todos em uma ação social definida por seus próprios desígnios, efetivando os valores mais comuns em prol da união de todos.

Ao pensar os modelos de sociedade, o sociólogo arrastou para seu campo de estudos o primeiro modelo de comunidade, sendo o mais antigo a ser definido pelas bases tradicionais; podendo Durkheim dessa forma definir a solidariedade mecânica que existe nesta casta. Assim, os valores de uma comunidade tradicional são definidos e determinados pela tradição, o que significa entender que as práticas sociais comuns a todos os membros de tal sociedade são interpretadas conforme se entende ser o certo a se fazer por puro hábito ou costume.

Entretanto, ao pensar assim o modelo de sociedade revela que todas as ações individuais são dirigidas à comunidade. Numa sociedade tradicional o índice de criminalidade tende a ser baixo uma vez que pessoas tendem a respeitar os valores morais que são praticados e produzidos pela sociedade.

Da mesma forma, entendem os anciões da vila, aqueles que são os guardiões da lei e da ordem, bem como dos trajes utilizados para fabricar o medo, que uma simples violação da norma, ou seja, pisar em local proibido ou adentrar as bordas do desconhecido habitado pelos monstros, não seria apenas uma brincadeira inocente de criança nem mesmo apenas uma violação à lei: seria uma forma de asseverar a norma, uma maneira de entender o comportamento que se desvia como algo útil.

Destarte, o desvio ou o crime tinha sua utilidade ao demonstrar para a comunidade que os valores morais que a estruturam foram desrespeitados, precisando então reforçar tais valores, o que era feito quando caia a noite, pelos anciões, vestidos de monstros e criaturas horrendas atrás dos criminosos que ousaram adentrar as bordas de sua morada.

Como Durkheim declarou, o crime aqui era normal e não patológico, servindo aos propósitos da comunidade e de suas estruturas, reforçando os valores da tradicionalidade da sociedade e de sua solidariedade mecânica.

Mas o que fica implícito em toda obra é o domínio do medo e o que ele é capaz de realizar, tanto a curto quanto a longo prazo. O medo é um forte aliado, bem como pode ser um inimigo voraz a ser combatido. Dominar o medo é diferente do que utilizar de seus meandros psicológicos para manter aquilo que se deseja manter, e, para reforçar o poder quando este precisa de retoques.

Após os inúmeros atentados terroristas no mundo, tanto Estados Unidos quanto França passaram a utilizar de métodos que se utilizam do medo para conseguir seus objetivos. As prisões norte americanas e o medo do outro ou do estranho fizeram com que se legitimasse a tortura e os tratos desumanos contra aqueles “parecidos” com árabes ou que vieram dos países da Ásia e das regiões “inimigas” do modelo tradicional americano.

Na França, um dos países mais inclusivos do mundo, o repensar de sua maneira de tratar e enxergar imigrantes torna cada vez mais o mundo um barril de pólvoras prestes a ser incendiado. Na Síria e em países do Golfo Pérsico, recheados de milenares conflitos, terroristas passam a expulsar e a matar os povos que não se convertem a seus mandamentos, ficando essas pessoas dominadas pelo medo e fugindo para lugares incertos e desconhecidos, em prol de mais um dia de vida.

O medo e seu controle pode, em todos os casos em que é utilizado desenfreadamente, ser um tiro pé.

A crescente desumanização do direito penal é uma resposta do sistema contra os medos que se digladiam todos os dias, torturas passam a ser convalidadas em benefício da nação contra um mal maior, num utilitarismo insensato que trama marcar qualquer desvio como típico de um criminoso voraz e contundente, iniciando a vida de qualquer um que contenha a marca da penalização, num dos maiores criadores de violência e destruição: o cárcere.

As prisões são a regra. O direito penal é a primeira razão, o herói a ser chamado, o controle social a ser utilizado. O medo e a luta pela punição custe o que custar penaliza a todo o momento aquele que pisar no terreno proibido, ou até mesmo, aquele que ousar bater de frente contra o sistema. Aqui o monstro não usa capuz vermelho mas vem disfarçado de lei e ordem.


Leia mais textos da coluna Crime, Arte e Literatura aqui.

Autor

Iverson Kech Ferreira

Mestre em Direito. Professor. Advogado.
Continue lendo
Receba novidades em seu e-mail