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Vivemos ainda em tempos de guilhotina?


Por Vitor da Matta Vívolo


Lewis Carroll, em 1865, presenteou-nos com a adorável personagem da Rainha de Copas, antagonista da famosa Alice que seguiu o coelho buraco adentro. Responsável pela manutenção de seu poder na irracional corte do País das Maravilhas, distribuía livremente seu senso de justiça e praticava a manutenção do poder em seu território. Em bordão já conhecido por todos, anunciava: “cortem-lhe a cabeça!”, e todos aqueles opostos às suas decisões magicamente abriam caminho.

Curiosa ironia de Carroll. A criação de uma personagem de temperamento intempestivo, cujos ultimatos são decididos pelo decepar de cabeças, mas ocupando o cargo de uma rainha. Tirania e elites no poder não apresentam qualquer espanto, claro, mas historicamente curioso pensarmos que, cerca de cem anos antes de sua obra, justamente uma rainha foi condenada à morte.

Em plena Revolução Francesa, aos últimos suspiros do século XVIII e do Antigo Regime, efervesceram práticas de difamação daqueles no poder. Panfletagens, caricaturas e notas jornalísticas traziam à tona supostas “fofocas” dos bastidores do Palácio Real. Ao longo da história, podemos perceber constantes afrontas populares às figuras no poder em forma de materiais impressos de cunho satírico. Apresentam o caráter de denúncia, exposição, conscientização, mas infelizmente também se utilizam do ódio como ferramenta de aglutinação de leitores e adeptos.

Lembram-se da famosa frase “pois que comam brioches”? Supostamente foi proferida por Maria Antonieta ao ser informada de que não havia mais pão disponível à população. Percorrendo as mídias impressas e o falatório, inflamando gentios de ódio à rainha, a tal acusação era mera reciclagem de fofoca de décadas antes… Sobre outra nobre no poder. Essa anedota explicativa não sobreviveu ao tempo tanto quanto a sua origem “midiática”.

O ares da gloriosa revolução que deu voz ao povo e destronou tiranos são aqueles que ainda circulam em nossas lembranças saudosistas. Nem só de heroismo e nobreza de caráter se faz uma revolução. Em meio ao furor político, discursos extremamente violentos acusavam a rainha de lesbianismo, de pedofilia para com seus filhos, de prostituição… Ainda no tom de anedotas, diz-se que Maria Antonieta, no dia em que foi levada à guilhotina, tropeçou em um degrau do cárcere e deu a testa de encontro a uma quina da parede. Perguntaram-na como se sentia, sua resposta supostamente foi: “já não sinto mais nada”.

Que tipo de sabor existe na humilhação de uma figura conhecida a todos? Não julguemos aqui o grau de culpabilidade ou de criminalidade da acusada, mas sim o discurso de ódio que a circunda. No seio da revolução, da mudança, existe inerentemente o espetáculo do ódio?

O estabelecimento de um meio de circulação de ideias é pressuposto de qualquer movimento social. Assim angariam-se membros, adeptos, participantes. Alguns pactos, no entanto, se fundamentam na construção de um discurso de justiça cuja essência é mero papagaismo da exclusão já vigente.

Lembrei-me do caso de Maria Antonieta ao me deparar com os movimentos dessa semana. Não por motivos de queda do poder ou martírio de figuras conhecidas, mas ao me deparar com o ódio inflamado de alguns membros da multidão. Dilma era chamada de “vagabunda” a plenos pulmões e numa rima de extremo mau gosto cuja terminação envolvia “tomar” em algum lugar. As páginas de facebook divulgavam desenhos de crianças cujos garranchinhos diziam “morra Lula”. Casos de pessoas agredidas por discordarem de encamisados de verde e amarelo.

A discussão de uma má gestão de uma presidente não é sinônimo de suas práticas sexuais ou lascívia. O cárcere de um ex-presidente não implica sua inevitável morte às futuras gerações. A discordância entre dois seres não pressupõe espancamento. Em que tipo de sociedade vivemos? Qual sociedade propomos? São duas questões a serem respondidas por essa explosão política e social, mas cujas respostas cada vez mais revelam-se amedrontadoras.

Edgar Morin, em seus estudos sobre a Cultura de Massas do Século XX nos constrói a ideia de “olimpianos”. Seriam estes os deuses modernos, do horizonte intocável da sociedade atual, vivendo em seu Monte Olimpo particular. “O olimpismo de uns nasce do imaginário, isso é, de papéis encarnados nos filmes (astros), o de outros nasce de sua função sagrada (realeza, presidência), de seus trabalhos heróicos (campeões, exploradores) ou eróticos (playboys)” (2002, p.105).  Sua queda, aparentemente, nos revela um prazer sádico e deliciosamente voyerista.

O ódio tornou-se ideologia, ferramenta de combate, como se vivêssemos em tempo de guerra e fascismo. Sua naturalização toma formas de discursos de mudança nas mãos de alguns indivíduos. Dos casos acima citamos, cabe-nos refletir algumas questões.

Chamar de “vagabunda” uma mulher no poder traz visibilidade à sua má gestão ou revela a misoginia encarcerada em nossa sociedade? Praticar uma pedagogia infantil cujo o desejo de morte é parâmetro de normalidade apresenta um processo de politização das gerações ou uma preocupante sede de violência? A agressão frente aos que discordam de um posicionamento é a defesa de um ideal ou a revelação da truculência da intolerância?

Alguns discursos e práticas, encobertos por bandeiras, pregam a mudança, mas somente sabem reproduzir os vícios presentes da sociedade que os abriga.

É preciso cuidado e auto-reflexão ao revoltar-se. A revolta é uma ferramenta ardilosa. “Μalhar os Judas” estabelece tênues linhas entre purgar uma sociedade de forma satírica ou carnavalizar a intolerância e ódio de uma época.

Desde antes dos anos de Maria Antonieta, assistir execuções públicas já fazia parte da distração popular. Era um ritual de sociabilidade, odiar um condenado em comum, encontrar amigos, ver o sangue escorrer pela lâmina ao partir seu pescoço. Um ritual purgatório em níveis até psíquicos, cuja essência revela o aparelho de comportamento pressuposto e imposto a uma época. Condenar alguém é tanto praticar a lei quanto externar exemplos de “aceitável” e “inaceitável”. Se desejamos mudança, utilizar-se da mesma guilhotina comandada anteriormente pelo poder nos trará magicamente a inversão perpétua de papéis?

Revolução e ódio não são sinônimos. Desconfiemos constantemente de políticos, da mídia… E de nós mesmos. É esse o exercício de transformação e futurismo.

_Colunistas-VitorMatta

Autor

Historiador. Mestrando em História. Pesquisador com ênfase no Século XIX e Belle Époque.
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