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Você não tem medo de ser advogado criminalista?

Por Anderson Figueira da Roza              

Conforme anunciado na semana anterior, este texto vai ilustrar outra pergunta frequente aos advogados criminalistas. De uma maneira objetiva, o histórico da carreira passa pelas fases relatadas a seguir.

Iniciando o novo ciclo após a formatura em Direito, certamente você seguirá estudando e passará no temível Exame da Ordem dos Advogados do Brasil, finalmente você receberá sua carteira profissional, se intitulará criminalista e caso não faça parte de uma banca de advogados da sua família, nem de amigos, vai desenvolver sua carreira na área penal.

Após ter se justificado às pessoas mais próximas do por que ter escolhido a advocacia criminal, muito embora você sonhe em atender somente os empresários e seus crimes de colarinho branco, seus primeiros clientes serão aqueles tradicionais do sistema, isto é, as pessoas mais pobres, moradores da periferia, com algumas acusações, onde você terá que ganhar a prática cobrando aos poucos, e para alavancar negócios e processos fará aquele maravilhoso pacote de 5 (cinco) processos pelo preço de 1 (um) ou 2 (dois).

Pronto, seu escritório já tem um certo de volume de casos. Por ser dedicado, você certamente terá êxito nos seus processos, e começará a ser indicado para outros conhecidos dos seus clientes, que também pertencem ao sistema penal, e sua vida profissional estará em franco crescimento.

Não precisa ter uma bola de cristal para identificar que seus clientes são aqueles acusados de furto, roubo ou que estão enfrentando um processo de tráfico de entorpecentes com uma pequena quantidade de drogas apreendida, ou uma arma, e vão surgindo também os primeiros júris, etc. Mas é o suficiente para que seus conhecidos comecem a lhe fazer a seguinte pergunta: “Você não tem medo de ser advogado criminalista?”.

No entanto, o que as pessoas gostariam de perguntar é: “Você não tem medo de trabalhar para estas pessoas? Veja bem, são bandidos, e caso você não os absolva, eles podem se vingar de você e seus familiares.” Para os que já atuam na área, é ou não é mais ou menos isso que você sente que as pessoas realmente estão querendo lhe perguntar?

Pensando nas carreiras jurídicas, eu acredito que os piores casos, aqueles que causam muita indignação social, como de serial killers, maníacos, estupradores em série, ladrões que matam por pequenos objetos (latrocínio), etc., na maioria das vezes acabam sendo atendidos pelos nobres Defensores Públicos, pois estes grandes profissionais não podem se negar a atender estes acusados. Sim, a Defensoria Pública não existe apenas para receber quem não tem recursos para contratar um advogado particular, eles atendem também aquela parcela de casos que os advogados privados acabam rejeitando por motivos de foro íntimo.

Então meus amigos, a fórmula que vai fazer você responder um não bem redondo para esta pergunta, é única: seja acima de tudo honesto, verdadeiro, não prometa vitórias fáceis, não minta para seu cliente em hipótese alguma. A advocacia criminal não precisa ser meteórica, embora você tenha sede de vitórias e de sucesso.

Na verdade, por mais simples que possa parecer um caso – e antes que você pergunte, sim, no meio dos processos complicados, vão aparecendo casos mais tranquilos – diga que vai ser difícil para buscar valorizar seu trabalho. Pois, este mesmo cliente que um dia chega com um pequeno problema, pode em outro momento voltar com um processo muito mais sério, então, cada passo por vez, a carreira é longa, e os resultados também devem ser proporcionais à sua trajetória na profissão.

A experiência me fez ver que os clientes que abandonam seus advogados possuem quase sempre a mesma causa: o advogado prometeu demais.  Se assim falou, pode até ter feito muito para resolver o caso, mas diante da expectativa criada, vai parecer que fez menos do que prometeu, ou o que pior, acaba deixando passar aquela ideia de que não disse toda a verdade para o cliente e seus familiares.

Certamente, agindo dessa forma, com transparência, olho no olho, e sempre transmitindo segurança a partir do seu conhecimento, passando a verdade sobre o que você sentiu sobre o caso, você não vai errar e jamais sentirá medo de um resultado negativo com o processo. Para aqueles que me conhecem e já me fizeram esta pergunta, sabem que eu respondi não, não tenho medo de ser advogado criminalista, por pior que seja a pessoa que eu tenha defendido na carreira. Como prova disso, frequento locais públicos na minha cidade como parques, praças, pratico caminhadas, corridas, e ando de bicicleta pelas ruas, muitas destas atividades com meus filhos desde que eram bem pequenos.

Não quero dizer aqui que você pode andar sem cuidados pela rua, não, jamais, a violência existe e qualquer um está sujeito a ser vítima, portanto esteja atento aos problemas de segurança da sua cidade. Porém, se você deseja se tornar mais um advogado criminalista não há necessidade de se cuidar ainda mais por conta desta escolha profissional. Portanto, siga sua intuição e seu sonho, a paixão pelo direito penal e processual penal é muito maior do que o discurso do medo, a advocacia criminal precisa de corações e mentes com coragem para enfrentar inimigos bem maiores, como os preconceitos, os pensamentos repetitivos de que o direito penal deve resolver os problemas de segurança pública, dentre outros, contamos com você para mudar a nossa história!

AndersonFigueira

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Anderson Roza

Mestrando em Ciências Criminais. Advogado.

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