Entrevistas

Falsas memórias e identificação de testemunhas (Entrevista com Elizabeth F. Loftus – parte 5)

Como as falsas memórias influenciam na identificação de testemunhas?

Não é apenas a memória de detalhes de eventos que pode ser alterada, mas também as lembranças de pessoas que já vimos antes. Todos os dias, nos Estados Unidos, centenas de pessoas viram réus em ações penais após ser identificadas por testemunhas entre uma fileira de pessoas ou algumas fotos. Milhares de estudos têm demonstrado que certas condições aumentam as chances de alguém ser identificado por equívoco (Wells, Memon & Penrod, 2006). Mesmo militares altamente treinados podem ser induzidos, a partir de sugestões, a identificar equivocadamente uma pessoa que os interrogou 30 minutos antes, de forma agressiva (Morgan et al, 2013). Alguns fatores nós temos que simplesmente aceitar, pois o sistema judicial não pode mudá-los – por exemplo, a relativa falta de confiabilidade de identificações interraciais. No entanto, o sistema judicial pode alterar outros fatores, como as instruções que são dadas às testemunhas antes de um reconhecimento pessoal entre vários suspeitos.

Preocupado com o crescente número de casos com condenações equivocadas baseadas em falsas memórias, o Departamento de Justiça Norte-Americano lançou um guia nacional de coleta e preservação de evidências testemunhais (Technical Working Group for Eyewitness Evidence, 1999). Os autores do guia basearam-se em resultados de pesquisas científicas para formatar suas recomendações. O guia, por exemplo, instrui os investigadores a usar perguntas abertas (“O que você pode me dizer sobre o carro?”), seguidas por outras mais específicas (“Qual era a cor do carro?”), em vez de conduzir perguntas sugestivas (“O carro era vermelho?”). O guia apresenta recomendações sobre instruções a ser dadas às testemunhas antes de um reconhecimento pessoal, como alinhar os suspeitos para o reconhecimento e como estes devem ser selecionados. Embora difícil, o processo de formatar um acordo entre promotores, advogados, polícia e cientistas resultou em um marco que certamente é um grande passo para a redução de condenações injustas (Doyle, 2005).

REFERÊNCIAS

Doyle, J. M. (2005). True witness. New York: Palgrave MacMillan.

Morgan,C.A., Southwick, S., Steffian, G., Hazlett, G.A., & Loftus, E.F. (2013) Misinformation can influence memory for recently experienced, highly stressful events, International Journal of Law and Psychiatry. 36, 11-17.

Technical Working Group for Eyewitness Evidence. (1999). Eyewitness evidence: A guide for law enforcement [Booklet]. Washington, DC: U.S. Department of Justice, Office of Justice Programs.

Wells, G.L., Memon, A., & Penrod, S.D. (2006) Eyewitness Evidence: Improving it’s probative value. Psychological Science in the Public Interest, 7, 45-75.

ElizabethLoftus

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