• 27 de setembro de 2020

Uma condição humana: o bom e o mau

 Uma condição humana: o bom e o mau

Uma condição humana: o bom e o mau

A profissão do profiler emerge numa tentativa de compreender o comportamento criminal com o intuito de identificar padrões comportamentais para que possam ajudar numa investigação forense, pois determinadas ações de certos tipos de criminosos pode estar relacionada com sua história pessoal e sua personalidade.

Entendemos também que o Criminal Profiling é uma técnica aplicada especialmente em caso de crimes violentos, como estupros e assassinatos. E para entender como é feita essa aplicabilidade numa investigação é importante entender a priori um pouco sobre a maldade humana.

Importante destacar que o profissional do Criminal Profiling se defrontará com cenas de crime, inquéritos e todas as informações possíveis relacionadas com o crime. Diante disso, o profiler analisará imagens estarrecedoras, cenas de pessoas mortas, torturadas ou estupradas, ouvirá testemunhos de toda a violência ocorrida, ou seja, terá que lidar com o que existe de pior no ser humano.

Em todos os tempos, ocorreram crimes que causaram comoção e terror na população e muitas explicações foram criadas, desde causas sobrenaturais, a possessões demoníacas, pela via da moralidade e bons costumes até as noções de psicopatologia.

Foucault (2002) escreveu sobre o “monstro humano”, outros responsabilizaram os lobisomens e vampiros e, este tipo de crime também fora (ainda é) considerado produto de forças ocultas e diabólicas que influenciavam a mente. Desde o século XIX, a psiquiatria vem tentando dar designações desse fenômeno até chegar à denominação de psicopatia. Classificaram como uma “mania sem delírio”, “insanidade moral” e em 1915 utiliza pela primeira vez o termo “personalidade psicopática”.

Um ponto a ser esclarecido é que no imaginário de algumas pessoas a culpa da violência no mundo é obra dos indivíduos com transtorno mental, é “louco”, tem “cara de doido”, mas a maior parte dos crimes são feitos por pessoas que não são consideradas doentes. São procedentes da violência doméstica, de briga em bares, de torcidas de futebol, do tráfico de drogas, entre outros. A maldade não está esculpida no rosto.

Muitos psicopatas e assassinos em série convivem entre nós, vivem um cotidiano em parte normal, pagam conta, fazem supermercado, muitas vezes têm família.  Porém por trás dessa fachada, há uma personalidade fria e sem remorsos, e age de acordo com suas próprias normas, manipulando os outros.

Wayne Gacy era um empreiteiro de obras, ativo em projetos da cidade, casado com filhos, até se vestia de palhaço para alegrar crianças enfermas. Visto como um cidadão honorário, matou mais de 33 meninos.

Ted Bundy, bonito e inteligente, tinha influência de amigos políticos. Cursou psicologia e trabalhou numa linha telefônica para ajudar suicidas (comparado ao Centro de Valorização da Vida daqui do Brasil). Também considerado cidadão exemplar, matou 24 mulheres.

Gary Ridgway, o Assassino de Green River, fora casado, tinha filhos e emprego fixo, foi condenado pela morte de quase cinquenta pessoas.

De onde vem essa maldade? Podemos conjecturar por uma referência dada por Simon (2009), do qual dentro das pessoas existe a bondade e a maldade, o problema se encontra quando a pessoa utiliza seus pensamentos destrutivos e age em função deles, causando o mal aos outros. A palavra-chave é o atuar, pois todos temos fantasias e pensamentos ruins. E quem sabe a “bondade” esteja no sublimar, ou seja, deslocar esses desejos para outros atos, que não prejudique o outro.

Freud (2001) em seu texto sobre Interpretação dos Sonhos, ele nos diz que o conteúdo dos sonhos muitas vezes se encontra em disparidade com o senso moral, e por isso que nenhuma lei pode nos obrigar a não termos sonhos imorais e que estando despertos não teremos fantasias criminais.

Simon e Freud nos ensinam que o conteúdo dos sonhos, as fantasias e os pensamentos ruins estão presentes em nós e que cada um tem uma responsabilidade social de controlar essa parte imoral. Que todos temos demônios pessoais.

Enfim, um profiler criminal tem que saber lidar com suas questões pessoais e atuar de forma ética e profissional ao elaborar o perfil do criminoso, cujo documento final é o resultado da “verificação, ponderação, interpretação e eliminação de provas correspondentes a uma ocorrência criminosa” (KONVALINA-SIMAS, 2014, P.49) e propiciando auxílio na investigação.


REFERÊNCIAS

FOUCAULT, M.  Os Anormais. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2002. 479p.

FREUD, S. A Interpretação dos Sonhos. Rio de Janeiro: Imago, 2001. 616p.

KONVALINA-SIMAS, T. Profiling Criminal – Introdução à análise comportamental no contexto investigativo. 2 ed. Editora Letras e Conceitos Lda, 2014. 306p.

SIMON, R. I. Homens Maus Fazem o que os Homens Bons Sonham. Porto Alegre: Artmed, 2009. 340p.

Clarice Santoro

Especialista em Psicanálise, Saúde Mental e Criminal Profiling. Psicóloga.