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Entrevista e interrogatório: o psicopata e o monitoramento da realidade

Canal Ciências Criminais

Por Thompson Cardoso


Você domina a matéria. Você domina as técnicas de entrevista e interrogatório. Você é hábil. Com sucessiva prática você dominará também a condução de entrevistas e interrogatórios. Não necessariamente… O domínio da técnica que funciona para 95% das entrevistas e interrogatórios não funciona quando o alvo é um psicopata… Se você não tiver identificado este perfil antes da entrevista/interrogatório irá errar na análise de veracidade.

Identificar um mentiroso passa também por identificar e contextualizar as emoções que permearem seu depoimento. E algumas emoções de um psicopata são totalmente distintas daquelas das pessoas normais, que não sofram deste transtorno de personalidade. Ele não sente alegria, ele sente satisfação. Ele não sente tristeza, ele sente frustração. Ele não sente medo, ele sente raiva, se seus objetivos forem ameaçados. E suas reais emoções não se expressam em seu convívio social. Ele simula um sorriso polido, mas é incapaz de sorrir de forma verdadeira, por empatia com a alegria de alguém. Ele não tem ética e não sente remorso. Sem identificar, pois, seu perfil, vamos avaliar erroneamente a contextualização do que percebermos como emoções, pois qualquer emoção que seja “perceptível” não passará, ela mesma, de uma enganação.

As duas características perceptíveis de um psicopata são, pois, a ausência de expressão de emoções em sua face, e, em decorrência desta ausência, uma expressão que nos causa desconforto.

Nossa amídala cerebral armazena padrões faciais de emoções. Reconhecemos a alegria, a tristeza, o nojo, o desprezo, a surpresa, o medo e a raiva, imediatamente, pois são expressões universais cujos padrões estão claramente definidos por esta glândula. O que nos é familiar não nos causa espécie. Mas ao depararmos uma expressão que não reconhecemos de imediato, a sensação de desconforto se faz presente e acende um alerta para a eventual presença de um psicopata.

Na condição de alto executivo de uma empresa ele demite ou cancela as férias programadas por um colaborador para sua lua de mel. Usa e descarta sucessivamente seus relacionamentos pessoais, quer de amizade ou de namoro, normalmente tendo causado enormes prejuízos de ordem emocional e financeira para as pessoas com quem tenha se envolvido. É também bastante comum que tenha uma vida promíscua, já que busca exclusivamente prazer.

Se pesquisarmos informações sobre nossos entrevistados/interrogados, e acharmos, pois, padrões comportamentais de quem não respeita o contrato social, e ao iniciarmos a entrevista/interrogatório somarmos a estes achados uma expressão facial sem qualquer emoção reconhecida e a sensação de desconforto, podemos passar da possibilidade à convicção de que estamos frente a um psicopata.

E isto não significa que ele seja um criminoso, muito menos que seja autor ou responsável presumido por algum crime em pauta, ou ainda que esteja mentindo nestas entrevistas/interrogatórios. A maioria dos psicopatas não é criminosa, embora uma grande quantidade de criminosos seja psicopata. Imputar-lhes responsabilidade por um fato apenas por identificação de seu perfil psicopata é o que descrevi em minha coluna anterior como contaminação.

Mas significa que se quisermos inferir corretamente sobre o que seja verdade ou enganação em seus depoimentos, temos que recorrer a uma ferramenta chamada Monitoramento da Realidade.

Precisamos buscar percepções sensoriais em seus depoimentos, que o “coloque nas cenas” que descreve. Em as havendo, independentemente de sua condição de psicopata, ele pode estar dizendo a verdade. Mas se seu depoimento tiver cunho genérico, sem as percepções pessoais das especificidades do fato narrado, isto será um forte indicativo de que as vivências que descreve não são reais. Uma coisa é, ao ser questionado “como fulano se sentiu naquele momento?”, o entrevistado/interrogado responder “alegre”, outra é ele responder “parecia que tinha feito aniversário”. Nesta segunda opção o depoente não só descreve que este fulano estava alegre, como passa a sua percepção sensorial da alegria percebida.

Por seu raciocínio totalmente racionalizado, o sociopata, no mais das vezes, é incapaz de notar a insensatez de suas declarações, e pode descrever uma presumível vivência com conotações absolutamente não críveis, fazendo com que percebamos, pela nossa vivência, que é inadmissível que os fatos tenham ocorrido da forma com que ele os narra, absolutamente fora da realidade.

Em um processo criminal também podemos utilizar esta ferramenta de Monitoramento da Realidade para mostrar de forma clara, para o juiz, que determinadas testemunhas estão mentindo. Basta, por exemplo, que as mesmas estejam descrevendo vivência concomitante do mesmo fato que refiram ter testemunhado. Utilizei esta ferramenta no caso da fraude da mega-sena, investigado pelo Departamento Estadual de Investigação Criminal (DEIC) quando eu lá estava lotado.

Um casal relatou que estavam juntos, na cama, quando conferiram os volantes da loteria. Entrevistei-os separadamente e solicitei que me descrevessem os fatos. Ambos descreveram exatamente a mesma coisa. Era notada, pois a presença orientadora de seus advogados. Pedi-lhes, então, separadamente, para que me descrevessem a posição que cada um dos dois estava na cama, e se a conferência fora feita individualmente, cada um conferindo alguns volantes, ou se conferiram os volantes juntos, um a um. Para estas questões o advogado não os havia preparado… E cada um deles descreveu de forma diferente este momento. Em realidade, eles não haviam vivenciado o momento. Era apenas uma história que dava cobertura às suas justificativas de não terem fraudado o bolão de loteria. E por não corresponderem a reais vivências, as respostas se originaram na construção individual de uma resposta que lhes parecia não ter a mínima importância. Mas, para o Delegado que assistia minhas entrevistas, tinha: expunha suas mentiras.

Analise, pois, os autos, e verifique quais as testemunhas contrárias irão prestar depoimento. Contextualizem-nas no processo. Estabeleça uma linha de raciocínio que lhe permita inferir a respeito de qual a razão daquelas testemunhas terem sido arroladas. Prepare questionamentos que possam explorar a obtenção de narrativas contraditórias de assuntos não relevantes, ou seja, com questões para as quais estas testemunhas não tenham siso preparadas para responder, e que gerarão conflito suficiente em suas respostas para que o juiz perceba a possibilidade clara de estar havendo uma enganação nestes depoimentos.

E isto funciona com quem seja ou não um psicopata. Mas lembre-se: seu objetivo será sempre questionar sobre vivências das testemunhas na cena, e não sobre a história para a qual elas foram bem preparadas para responder a respeito, e cujas respostas acabarão por cingir-se ao que consta nos autos do processo ou gerarão conflito que tirará o foco e poderá levar o juiz a “encerrar” este conflito tomando para si os questionamentos que entenda como pertinentes, quase sempre sem levar em consideração a linha de raciocínio que o levou a fazer aqueles questionamentos, perdendo-se, pois qualquer estratégia prevista para o desenrolar da entrevista/interrogatório. Você estará gerando novas bases de convicção para o juiz. Manter-se com questionamentos somente sobre o que já está nos autos dificilmente irá alterar a pré-convicção do juiz, antes da audiência. Explore o Monitoramento da Realidade e se surpreenderá com os resultados.

Como tenho encerrado minhas últimas colunas, reitero que terei a oportunidade de conhecer pessoalmente alguns de vocês, dia 9/4, durante as sete horas e meia do evento presencial organizado pelo Canal Ciências Criminais, com inscrições em andamento, no Centro de Eventos do Plaza São Rafael, e que será destinado especialmente aos operadores do Direito, visando transmitir aos participantes o domínio de ferramentas de produção de informações e detecção de mentiras, indo bastante além da simples transmissão de informações que procuro fazer nestas colunas, com muitas dinâmicas que mudarão, em todos os participantes, a forma de conduzir, produzir e enxergar os depoimentos, em entrevistas e audiências, com foco específico na continuidade das orientações sobre como planejar o questionamento.

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Minha próxima coluna, somente após o evento. Até lá! Um abraço!

_Colunistas-Thompson

Autor
Professor
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