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O que o caos no Espírito Santo e o vestido de Geisy Arruda têm em comum?

Canal Ciências Criminais

O que o caos no Espírito Santo e o vestido de Geisy Arruda têm em comum?

Estabelecimentos fechados. Lojas arrombadas e saqueadas. Pessoas estocando alimentos. Escassez de produtos básicos. Pessoas armadas no meio da rua. Troca de tiros. Roubos. Mortes. Em resumo: caos total.

Todos estes elementos já serviram de inspiração para películas cinematográficas ficcionais. Todavia, estas cenas antes apenas vistas em filmes e seriados pós-apocalípticos, agora se tornaram reais no Estado do Espirito Santo.

A suspensão das atividades da Polícia Militar desencadeou uma onda de fenômenos violentos e fatos criminosos, chegando ao ponto de tornar “pessoas comuns”, sem qualquer histórico criminal, em súbitos delinquentes.

O pai de família exemplar ajuda a arrombar a loja de departamentos para saquear seus pertences, enquanto a trabalhadora exemplar, que nunca faltou um dia sequer, espera no carro como motorista de fuga.

O contexto criado no Espírito Santo e o caldo cultural lá formado fazem com que as pessoas sejam repentinamente tomadas por impulsos delitivos, formando, assim, uma turba enfurecida disposta a satisfazer os seus interesses a qualquer custo e sem quaisquer constrangimentos.

Mas, por que isso acontece? Por que pessoas que individual e isoladamente sempre tiveram conduta exemplar agem de forma desordeira? Diversas explicações podem ser dadas e nunca haverá uma resposta final, mas a presente coluna abordará o poder do contexto e o efeito manada[1].

Sobre o poder do contexto, ele transmite a ideia de que a realização de condutas anti-normativas não está atrelada, sempre, ao indivíduo, mas em grande escala ao ambiente envolvido reoxroz.

Especificamente em relação aos delinquentes, pode-se dizer que “longe de ser um indivíduo que age por razões fundamentais, intrínsecas, e que vive em seu próprio mundo – é, na verdade, alguém profundamente sensível ao ambiente, que está alerta a todos os tipos de sinais e que é motivado a cometer crimes baseado na sua percepção do universo ao redor” (GLADWELL, 2009, p. 146-147).

De fato, as relações sociais, o local em que estamos, a expectativa social, a sensação de (in)segurança, a (des)crença nas instituições, a (in)certeza da punição são todos fatores que modulam as condutas do seres humanos.

A pessoa mais dócil no trabalho pode ser bastante agressiva em seus relacionamentos afetivos, ou vice-versa, tudo a depender do conjunto de circunstâncias envolvidas.

Ninguém é ou não é algo. Evidente que existem características que tendem a ser predominantes em determinadas pessoas, mas mesmo elas variam de forma situacional.

Experimente, por exemplo, alongar a conversa com aquele sujeito bom de papo quando ele estiver com fome. Ainda, tente pedir informações para alguém prestativo quando ele estiver com pressa. Por fim, tente conversar animadamente com aquele cidadão bem-humorado às 6h, no momento em que ele acabou de acordar.

Todas essas situações são exemplos de circunstâncias que, associadas, podem influir no comportamento das pessoas em desconformidade daquilo que normalmente se esperaria. Assim, no Espírito Santo, de alguma maneira criou-se um contexto que impulsionou as pessoas a expor a público suas facetas desconhecidas.

Em prosseguimento, não se pode ignorar os efeitos que um grupo, o geral, a maioria, reflete no individuo, na singularidade, no sujeito. Nos mais variados aspectos somos influenciados pelas pessoas que nos cercam.

Vestimos determinadas roupas, lemos determinados livros, falamos determinadas coisas, bebemos determinadas bebidas, em conformidade com a expectativa do grupo. Atire a primeira pedra quem nunca fez (ou deixou de fazer) algo por pressão da comunidade ou por receio de não ser aceito por determinado círculo social.

A influência de um grupo de pessoas, contudo, não se encerra em nossas ações quotidianas.

De fato, em algumas situações, normalmente envolvendo multidões e tumultos, ocorre o denominado efeito manada, fazendo com que as pessoas ajam em conjunto, de forma desordenada, sem qualquer planejamento prévio, ou seja, o sujeito, despido de seus incentivos tradicionais, adere ao comportamento do grupo, muitas vezes sem racionalizar os fatores que o levaram a tomada de decisão.

Um exemplo disso foi o que ocorreu por volta das 19h50min do dia 22 de outubro de 2009, quando a menina Geisy Arruda, então com 20 anos de idade, resolveu ir a Faculdade de Turismo trajando um vestido rosa.

Ao chegar na Universidade Bandeirantes de São Paulo, a aluna foi assediada, ameaçada e ofendida por diversos alunos – homens e mulheres –, estudantes de ensino superior. Segundo relatou Geisy em entrevista concedidaeles chutavam a porta, batiam na janela, tentavam filmar tudo com os celulares. Gritavam ‘puta, puta’, ‘deixem ela com a gente’, ‘nós vamos estuprar’, ‘vamos linchar’ e outras coisas terríveis.

O resultado? A polícia teve que ser acionada para escoltar Geisy, que saiu vestindo um jaleco.

Nesse ponto podemos nos questionar, o que o caos no Espírito Santo tem a ver com o vestido de Geisy Arruda?

A resposta é que ambos os acontecimentos marcantes foram determinados pelo grupo e pelo contexto. Os pais e mães de família que saquearam as lojas, assim como os estudantes universitários que ofenderam Geisy, provavelmente não teriam agido dessa forma não fosse a influência dos demais.

Em ambos os casos é possível que a ação da primeira pessoa tenha desencadeado reações instintivas nos demais, conflagrando uma verdadeira ação de rebanho ou efeito manada.

Sobre isso, é significativo trecho de entrevista concedida por Geisy: “enquanto eu andava escoltada pelos policiais, o pessoal gritava feito louco. Um detalhe curioso: os homens ficaram mais descontrolados e as ofensas verbais aumentaram quando as mulheres se aproximaram e fizeram críticas”.

A constatação de Geisy é correta. Efetivamente a instigação das mulheres às palavras desairosas deram ainda mais legitimidade ao lamentável comportamento de rebanho dos participantes do fatídico evento.

Tendo dito isso tudo, cumpre pontuar que não se está a negligenciar a importância positiva da ação comunitária. De fato, a sociedade somente possui a capacidade de se desenvolver caso haja atuação conjugada da população com as instituições formais.

Todavia, para evitar sucumbir a influências negativas, é importante que reafirmemos nossos valores e princípios, a fim de tentar se manter inerte à orientações negativas e pejorativas, sendo, por outro lado, agentes causadores de pontos de virada positivos, agregadores e favoráveis ao desenvolvimento social.

É bom lembrar que, assim como condutas negativas, o grupo pode influenciar, sim, condutas positivas. Afinal, quem nunca teve o seu dia contagiado por um grupo animado e divertido, com belos sorrisos e boas gargalhadas? Estar inserido em um ambiente leve e agradável pode, sim, trazer mais alegria.

Em termos her, podemos lembrar dos jovens voluntários que heroicamente auxiliaram no resgate das vítimas da tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Muitos dos jovens presentes no local, que já se encontravam em segurança, empunharam marretas e quebraram as paredes, resgatando e carregando no colo outras vítimas desacordadas.

Infelizmente, alguns desses heróis acabaram falecendo, ante o hercúleo esforço desenvolvido no resgate, como Vinícius Montardo Rosado, de 26 anos. Segundo relatos, o jovem foi um dos primeiros a sair da boate, mas acabou voltando para ajudar quem não conseguia escapar, tendo conseguido retirar do interior das chamas pelo menos 14 pessoas.

Vinícius se foi, mas seu gesto heróico pode ter influenciado diversas outras pessoas no local, que agiram à semelhança da coragem demonstrada. É perfeitamente razoável, portanto, a conclusão de seu pai, Ogier de Vargas Rosado, no sentido de que “se ele e muitos outros jovens não tivessem voltado para ajudar, essa tragédia seria muito maior. Em vez de 234, seriam 400, 500 mortos”.


NOTAS

[1] Já escrevi AQUI no Canal Ciências Criminais sobre o “bystander effectr” (efeito espectador), fenômeno que faz com que a presença do grupo iniba a ação dos “cidadãos comuns” nas mais variadas situações, inclusive diante do estupro e assassinato de Kitty Genovese. Hoje, a coluna versa sobre um fenômeno social distinto, o efeito manada, no qual a presença do grupo faz justamente o contrário do efeito espectador, influencia o grupo a agir.


REFERÊNCIAS

GLADWELL, Malcom. O ponto da virada. Rio de Janeiro: Sextante, 2009.

Autor
Advogado (RS) e Professor
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