• 25 de setembro de 2020

Pulsões neofascistas na era da pós-verdade

 Pulsões neofascistas na era da pós-verdade

Pulsões neofascistas na era da pós-verdade

Com o avanço das tecnologias de informação e dentro de um mundo globalizado, onde qualquer material inserido na rede mundial de computadores está imediatamente disponível para qualquer usuário no planeta, muitas mudanças ocorreram na sociedade – algumas boas, outras, nem tanto.

Nada obstante as inúmeras vantagens trazidas pela internet em diversos setores essenciais – principalmente no tocante ao avanço científico, ao comércio e à comunicação –, a quebra de fronteiras trazidas pela velocidade de propagação de dados também possui seus malefícios. Um deles é a enxurrada de fake news, algo que hodiernamente é corriqueiro por todos lados.

A temática que envolve as notícias falsas, suas consequências e conceituação é muito ampla, e o aprofundamento demasiado nesta questão fugiria do que pretende o presente artigo. O enfoque neste escrito se situa especificamente em algo que está sendo escancarado nestes últimos tempos: a desinformação sistematizada.

A situação decorrente deste grande avanço da comunicação foi a aurora de uma era denominada de pós-verdade, onde a opinião pública pode ser moldada com apelos emocionais e com base em informações falsas, de maneira que fatos objetivos e científicos possuem pouca ou nenhuma influência, sendo (in)conscientemente ignorados e/ou rejeitados. Em contrapartida ao famoso ditado, a realidade é que o brasileiro não precisa ser estudado, ele precisa estudar

Frisa-se que esta sistematização da desinformação – em outras palavras, a disseminação de falsidades de todos os tipos – possui uma finalidade muito bem delimitada, qual seja, a obtenção de vantagens, especialmente políticas e econômicas. 

Não é necessário grande esforço intelectual e analítico para entender que uma notícia falsa pode causar um dano gigantesco – dano este que é extremamente mais perigoso e com uma capacidade de alcance tão maior quando a sistematização da desinformação parte de membros do governo, que possuem sempre interesses pessoais que dificilmente convergem com o que é melhor para o bem comum da população. Relembrando que não é segredo nenhum o fato de que as fake news tiveram um grande papel nas eleições de 2018.

Com efeito, a postura tomada pelo presidente do país é deveras preocupante. Toda a sua fala é desprovida de qualquer embasamento científico e possui um gritante viés desumano, totalmente despreocupado com a saúde do povo e sempre em uma suposta “defesa da economia”. Mas economia de quem? Do trabalhador que está arriscando a vida, muitas vezes sendo obrigado a enfrentar locais superlotados como terminais, ônibus, metrôs, etc., ou do grande empresário que quer a todo custo diminuir seus prejuízos e manter seu padrão luxuoso de vida?

As mais absurdas falácias foram defendidas pelo chefe de Estado, tantas que seria cansativo e enfadonho enumerá-las uma por uma. A exemplo:

Esse vírus é igual uma chuva, vai molhar 70% de vocês. Isso ninguém contesta. Toda nação vai ficar livre da pandemia depois que 70% for infectada e conseguir os anticorpos, ponto final.

Irritado com o fato de que especialistas em saúde pública e governadores que criticam suas declarações que minimizam a periculosidade da pandemia, chegou a chamar jornalistas de “urubus”.

Diante da situação, a Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD) protocolou no Tribunal Penal Internacional uma representação contra o presidente da República em razão de práticas que constituem crimes contra a humanidade, tendo como vítimas toda a população brasileira:

Segundo a ABJD, Bolsonaro está cometendo o crime de epidemia, previsto no art. 267, do Código Penal Brasileiro, e na Lei nº 8.072/1990, que dispõe sobre crimes hediondos. Além de infringir medida sanitária preventiva, conforme art. 268, também do Código Penal. Bem como viola a Lei nº 13.979, de 6 de fevereiro de 2020, que trata especificamente da emergência do Covid-19, e a Portaria Interministerial nº 05, de 17 de março de 2020, que determina, em seus arts. 3º e 4º, que o descumprimento das medidas de isolamento e quarentena, assim como a resistência a se submeter a exames médicos, testes laboratoriais e tratamentos médicos específicos, acarretam punição com base nos arts. 268 e 330, do Código Penal.

Indo na contramão de todas as recomendações de especialistas, bem como da Organização Mundial da Saúde (OMS), e ignorando completamente os fatos desastrosos obtidos pela observação da experiência de países que não impuseram o isolamento social e tiveram grande número de infecções e mortes como Espanha e Itália, Bolsonaro continua com seu discurso necropolítico, tendo inclusive sendo eleito pelo jornal americano The Washington Post como o pior líder a lidar com o coronavírus.

Como se tudo isso ainda não bastasse, o (des)presidente ainda participou, no dia 19/04, de uma manifestação em Brasília em favor de golpe militar, proferindo absurdos tão preocupantes quanto assustadores: “Nós não queremos negociar nada. Nós queremos ação pelo Brasil“, declarou o presidente, que participou pelo segundo dia seguido de manifestação na capital federal, provocando aglomerações em meio à pandemia do coronavírus.

Chega da velha política. Agora é Brasil acima de tudo e Deus acima de todos.

A falta de lógica presente nesse tipo de ato é estrondosa. Bizarra. Em primeiro lugar, a manifestação foi algo que feriu de morte todas as recomendações de segurança para frear a propagação do Covid-19. Para mais, a defesa mediante protesto do Ato Institucional nº 5 (AI-5) – entendido como o marco que inaugurou o período mais sombrio da ditadura e que concluiu uma transição que instaurou de fato um período ditatorial no Brasil – é um paradoxo, uma vez que proíbe atividades ou manifestação sobre assunto de natureza política (art. 5º, III), dentre diversas outras medidas repressivas que não podem sequer serem cogitadas hoje em dia.

Estamos vivendo em tempos sombrios. Desde a época da sua campanha na eleição de 2018, Jair Bolsonaro flerta abertamente com o fascismo. Suas reiteradas ações desrespeitam tanto a população do Brasil quanto as suas instituições democráticas, uma vez que o chefe de Estado joga com a vidas das pessoas e ainda incita um novo golpe militar.

Quando falamos em pulsões neofascistas estamos nos referindo justamente à forma como o discurso punitivista é amplamente propagado, fomentando a cólera e a sede de vingança. Existe um fetiche que é mascarado e transvertido em um suposto senso simbólico-imaginário de justiça, amparado pelas leis vigentes, validando assim as diversas violências arbitrárias perpetradas pelo poder punitivo. Em outras palavras, o “fetichismo legal” atua como um purificador que legitima os abusos de poder (PIRES, 2018, pp.75-76).

O populismo exercido de maneira desleal, impulsionado e (re)alimentado por uma mistura de ódio, total falta de consideração com o próximo e um suposto senso de patriotismo desvirtuado – onde se invertem os valores e se pretende fazer acreditar que o “cidadão de bem” está sendo constantemente prejudicado – estabelece que seja cada vez mais comum a aparição de neofascismos, bem como de um possível suicídio coletivo, no momento em que se clama pelo fim do isolamento social e pela “volta ao normal” de um mundo que na verdade não existe mais.

Até o presente momento toda a história humana nada mais foi senão uma imolação perpétua e sangrenta de milhões de pobres seres humanos a uma abstração impiedosa qualquer: Deus, Pátria, poder do Estado, honra nacional, direitos históricos, liberdade política, bem público. (BAKUNIN, 2002. p.60).

Destarte, a fórmula constituída pela desinformação sistematizada somada a discursos punitivistas está se apresentando como algo imensamente perigoso. Todas as pessoas, sem exceção, estão sendo prejudicadas por conta da pandemia. O problema é que talvez seja difícil se dar conta disso enquanto nenhum ente querido é infectado. A vida e a liberdade devem ter prioridade acima de tudo, de maneira que falácias que visam diminuir qualquer um desses valores basilares e inerentes ao ser humano devem ser vigorosamente combatidos.


REFERÊNCIAS

BAKUNIN, Mikhail. Deus e o Estado. Tradução de Plínio Augusto. Ano de digitalização: 2002.

PIRES, Guilherme Moreira. O Estado e seus inimigos, multiplicidade e alteridade em chamas: apontamentos abolicionistas. 1.ed. Florianópolis: Habitus, 2018.


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Murillo Heinrich Centeno