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O advogado do Diabo

Por Jean de Menezes Severo

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Fala moçada! Semana de trabalho intenso na capital do meu Rio Grande do Sul. Perdi as contas de quantas vezes estive em delegacias de polícia realizando flagrantes, acompanhando depoimentos, levando e buscando ofícios… Uma verdadeira loucura! Advocacia criminal “na veia”. Colocando em prática tudo aquilo que aprendi durante estes longos anos dedicados à advocacia criminal. Gosto de dividir com os leitores meus acertos e erros. Assim, com os acertos, vocês podem ter uma boa ideia do que fazer quando se depararem com determinado caso e também sim, podem aprender com meus erros, não repetindo as bobagens que já fiz.

Então, chega de papo e vamos para a próxima coluna!

Eu já fazia júris e estava indo “de vento em popa” como advogado de defesa, quando recebi meu primeiro convite para atuar como assistente de acusação em plenário. No início me empolguei com o convite, afinal de contas, era uma nova oportunidade de encarar a atividade profissional, desta vez na figura do assistente de acusação, além de receber polpudos honorários apenas para fazer o plenário. Na época aquela grana iria me ajudar muito. E ajudou.

Homicídio ocorrido no interior. Duas famílias com excelentes condições financeiras. Do outro lado, na defesa, advogados competentíssimos. Na época, os maiores honorários do Rio Grande do Sul. Confesso a vocês que o fato de trabalhar contra advogados tão respeitados não me assustava em nada; não nasci de susto, portanto não sou assustado e já enfrentei as mais terríveis dificuldades na vida e que só vieram a me fortalecer ainda mais, além do fato de já ter feito muitos plenários e, principalmente, assistido a muitos júris. Eu já tinha muita segurança no meu trabalho, porém o que mais me incomodava era minha consciência de advogado de defesa.

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O processo TODO em favor da defesa. Briga de bar que terminou mal, legítima defesa própria e de terceiros escancarada, mas os colegas que estavam na bancada da defesa decidiram ser muito técnicos no plenário e esqueceram que o que o que faz pulsar o coração do tribunal do júri é a emoção.

No dia do plenário, salão do júri lotado. Duas famílias abaladas; réu preso por tempo considerável. Sempre digo que no tribunal do júri não existem espaços para alegria, piadas. O júri é um palco marcado pela tragédia e sofrimento; não existem ganhadores ou perdedores. No júri, tristeza e tensão caminham juntas, portanto, não espere facilidades no plenário. O tempo é sempre ruim.

Pois bem. Eu estava naquela distante e fria cidade do interior gaúcho para fazer meu primeiro plenário do júri como assistente de acusação. Os honorários estavam depositados, então não havia como desistir. Eu tinha que pedir a condenação e não era nada fácil para alguém que passou a vida inteira defendendo a liberdade.

Pedi que à promotora me concedesse apenas meia hora de fala. Sabia como condenar aquele réu a mais de doze anos de reclusão, pois, durante a minha vida como estudante, e depois como advogado, assisti a brilhantes promotores de justiça e eles sempre diziam uma coisa que me incomodava bastante:

“O jurado se comove com a figura do réu fragilizado pelo cárcere, mas é uma pena não poder trazer a vítima para este julgamento para que, da mesma forma, os jurados venham a se comover com ela.”

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Foi então que tive a ideia de trazer a vítima ao julgamento. Garçom, o pensador francês, já dizia: um olho só compreende muito mais do que dois bons ouvidos, e durante os meus primeiros quinze minutos de fala, fiz o júri com uma foto da vítima em tamanho gigante na mesma altura da vítima, sorrindo, em família como se ele estivesse ali presente. Inclusive, conversava com ela naquela foto, o que causava espanto a todos os presentes. Porém, o pior mesmo foi quando, nos meus últimos quinze minutos finais de fala, trouxe ao plenário a foto da vítima morta, desfigurada, no mesmo tamanho da primeira. Essa foto fez com que algumas pessoas saíssem do plenário tamanha a dor e o sofrimento que foi implantado naquele momento e, ao final da minha fala e do meu pedido de condenação, em compasso com a promotora, ela só me olhou e baixinho me falou:

“Este réu esta condenado. Nem vamos á replica.”

E não precisaria mesmo. Tudo foi juntado no prazo legal. Tudo pensado por mim. Quinze anos de reclusão. A defesa do acusado sucumbiu naquele dia. A condenação foi unânime. Recordo-me da mãe do acusado me ofendendo assim como o pai e irmãos tentando me agredir, mas nada me incomodava mais do que minha consciência de advogado de defesa. Saí escoltado do plenário. Uma grande confusão generalizada começou. O tempo “fechou” mesmo. A família do réu estava inconsolável e a da vítima estava extasiada. “Alma lavada”.

Será que havia sido feita justiça? Pergunto-me isso até hoje. Fiz meu trabalho bem feito naquele dia, no entanto, nunca mais atuei como assistente de acusação. Lembro-me do olhar do réu contra mim, uma espécie de ódio e de perplexidade. A defesa dos outros colegas haviam-lhe prometido uma absolvição segura e no júri não se faz promessas; apenas se trabalha. Volta e meia me pego pensando nesse júri, na cidade, na família do réu, no réu e, principalmente, no que a mãe do réu me chamou quando saía do carro:

“Tu és um demônio, um diabo! Você acabou com a vida do meu filho, tu és o advogado do diabo!”

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Ela também me ofendeu de um montão de coisas. Não retruquei. Mãe de réu e mãe de vítima podem tudo. Eu já tinha feito meu trabalho e só queria chegar logo em casa e esquecer aquele dia em que eu fui o advogado do diabo.

JeanSevero

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