• 10 de dezembro de 2019

O problema é estrutural

 O problema é estrutural

O problema é estrutural

Não é de hoje as discussões sobre oportunidades e meritocracia, bradando alguns que se torna bandido quem quer, pois é questão de escolha.

Concordo que é escolha, mas quais são as opções disponíveis?

Não tem como compararmos oportunidades de alguns menos privilegiados com oportunidades de outros mais privilegiados. Na verdade, a comparação até é possível, mas a exigência que se faz de um, não tem como se fazer de outro.

Quais são, dentro da sua família, os seus piores e melhores exemplos?

Tenho a convicção de que muitos receberam incentivos dos pais para estudar, ainda que eles não tivessem condições de pagar uma escola privada, estavam, muito provavelmente, apoiando e mandando estudar.

Aí, logo dizem que não trabalha quem não quer.

Todos os dias percebo pessoas vendendo mercadorias (ou tentando) dentro um de trem que liga algumas cidades da região metropolitana de Porto Alegre à Capital, muitas delas crianças e negras (das crianças que lembro, todas são negras!).

Na hora de mostrarem o exemplo moralista que normalmente despejam no Facebook e ajudar comprando pelo menos uma bala, não compram absolutamente nada (ok, não precisa comprar seja qual for o motivo), mas como não bastasse, fazem cara de nojo e simplesmente menosprezam, quando não xingam ou dizem que está vendendo (trabalhando) de escorado, que podia estar fazendo outra coisa ao invés de tentar se fazer de coitado (??).

Pois é, nessas horas não compreendo mais nada, afinal, tem ou não que trabalhar? 

Eu acredito que aquela criança deveria estar estudando, mas compreendo a caixinha de surpresas da vida, só não compreendo a contradição, uma hora deveria estar trabalhando, outra, já está se fazendo de coitado?

Assim, quais as opções que vão sobrando?

O pai e a mãe trabalhando o dia todo, provavelmente ganhando um salário mínimo (o que se faz com um salário mínimo?); o filho fica na rua sendo literalmente esculachado quando tentava vender algo; o estudo que recebe no turno contrário é um estudo defasado (sem condição alguma de concorrer com o cara que acredita na meritocracia e ao mesmo tempo está na melhor escola privada, andando no Mercedes do pai e sem trabalhar, pois precisa estudar mais para passar na Federal).

A criança começa a perceber que nunca vai ter uma vida diferente da dos pais.

No bairro dele, quem é respeitado? Quem anda um pouco melhor? Qual a perspectiva de vida que ele vislumbra?

Aí começa perceber que seus colegas ganham dinheiro fácil e o  irmão do colega já é mais velho e um pouco mais respeitado.

Agora a combinação fatal: o que pode dar errado? Pode ficar pior? O que tem a perder?

É só ir ali e entregar.

Uma coisa é certa: onde o Estado falha, alguém ocupa o espaço. Aquela criança que deveria estar na escola estudando, morando em um bairro com um mínimo de saneamento básico, tendo acesso à saúde com um mínimo de dignidade e vislumbrando um futuro de qualidade, estará muito mais vulnerável ao crime organizado.

Quem acredita que o sistema penal tem condições de mudar alguma pessoa está com toda razão. Mas infelizmente essa mudança não é para melhor.

Além do mais, prender vai sim contribuir com a circulação da economia do crime, pois são as facções que controlam os presídios. (Recomendo o curso “Em busca da liberdade”, ministrado pela Dra. e professora Mariana Py Muniz Cappellari, na VOX, do Canal Ciências Criminais).

Finalizando, gostaria de lembrar da primeira lei de Newton (Lei da Inércia).

Um objeto permanecerá em repouso ou em movimento uniforme em linha reta a menos que tenha seu estado alterado pela ação de uma força externa.

Essa tendência apenas altera-se quando outra força reage!

Trata-se de fenômeno distinto, porém com uma perfeita analogia.

Precisamos de mais prevenção (direitos sociais), e não de leis criando mais crimes ou aumentado penas!

O problema é estrutural

O problema é estrutural, vem do alicerce, não adianta tentar arrumar o telhado que não vai funcionar.


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Filipe Menezes

Acadêmico do Curso de Direito na Universidade Feevale